escoras-de-eucalipto-11
S. J
S. J
DJI_0125
DJI_0231
DJI_0232
DJI_0250
 

Olhe para o norte do topo de uma torre de branqueamento de 120 metros da planta de celulose Horizonte 1, da Fibria e tudo o que você conseguirá ver são plantações altas e esguias de eucalipto. Elas se estendem desde o portão da fábrica, passando pelas ondulações sutis do relevo do Mato Grosso do Sul, um estado localizado no centro-oeste brasileiro, até o horizonte.

 

“Essa é a nossa vantagem competitiva”, explica Alexandre Figueiredo, encarregado da produção na fábrica. A Fibria, proprietária desta, é a maior produtora de celulose de fibra-curta, utilizada para fazer papel impresso, fraldas e notas de banco entre outras coisas. (A fibra longa é usada para papéis de alta gramatura e embalagens).

 

Como seu nome sugere, o estado do Mato Grosso do Sul, possui vastas extensões de cerrado, uma parcela da qual foi há muito tempo transformada em fazendas, sendo que algumas recentemente plantaram apenas o eucalipto. A maior parte dos 568 mil hectares de plantação da Fibria se encontra a cerca de 200 km de sua fábrica.

Eldorado, a rival com uma fábrica do outro lado do município de Três Lagoas (cidade de 115 mil habitantes, que vem se tornando rapidamente o grande polo de celulose do Brasil), precisa que seus veículos pesados busquem madeira um pouco mais distante. Nenhuma outra firma no mundo possui acesso tão pronto a matéria-prima. Basta sentir o clima ameno e como o Brasil conquistou 40% do mercado mundial de fibra curta.

 

O investimento em tecnologia tem valido a pena também. No final dos anos 90 os brasileiros introduziram uma variedade de eucalipto de crescimento acelerado que pode ser colhida após apenas sete anos, comparado com as duas décadas ou mais necessárias para o crescimento das espécies de pinus, a principal fonte de celulose no hemisfério norte. Vizinho à Horizonte 1, a Fibria está construindo um berçário com tecnologia concebida por cultivadores de flores holandesas. A Eldorado foi pioneira no uso de drones para mapear a topografia de suas florestas e aperfeiçoar o plantio e a colheita.

 

Os produtores de celulose também estão prosperando, graças à tempestade que está sugando muito da vida do restante da economia brasileira. Com vista privilegiada, o Sr. Figueiredo acena para única área aberta na paisagem arbórea: uma fábrica de adubos inacabada da Petrobrás a poucos quilômetros de distância.

A construção parou em 2014, quando a gigante estatal petroleira surgiu como o foco de um esquema multibilionário de propinas que ainda pode derrubar o governo brasileiro.

 

A fábrica inacabada proporciona um forte contraste à atividade frenética diretamente abaixo dela, onde uma segunda linha de produção de 8,7 bilhões de reais ($2.4 bilhões) está tomando forma que irá mais que dobrar a capacidade anual atual de 1,3 toneladas, uma vez que for completada em 2017.

 

A recessão e a agitação política levou o real, a moeda brasileira, a depreciar 60% contra o dólar desde 2011, o que é um beneficio aos produtores de celulose, que exportam quase toda sua produção. A Standard & Poor’s, outra agência de rating, considera que o custo de produção em dólares caiu em US$50 por tonelada em 2015; outros US$40 por tonelada foram economizados com a manutenção das fábricas. O banco UBS calcula que para cada depreciação de 10 centavos do real ante o dólar, os ganhos dos produtores brasileiros aumenta em US$15 por tonelada.

 

Enquanto o real desabou, os preços mundiais de celulose se mantiveram constantes, diferentemente de outras commodities produzidas pelo Brasil que tiveram forte queda (veja gráfico na próxima pagina).

Em meio ao seu rebalanceamento de uma economia focada em investimentos para uma mais voltada ao consumo, a China pode construir menos pontes, ferindo as exportações de minério de ferro do Brasil. Porém, os chineses estão comprando mais papel higiênico; e acima de 40% da produção brasileira de celulose se torna tissue (papéis absorventes) para o mercado chinês. Entre 2013 e 2023 as vendas anuais desse tipo de papel irão crescer 7.4 m de toneladas, sendo que a China representará pelo menos metade desse crescimento, de acordo com a RISI, uma firma de consultoria.

A combinação de moeda barata e demanda sustentável impulsionou a margem dos produtos brasileiros para níveis de dar agua na boca. A margem da Fibria atingiu 53%, com receita recorde de 10,1 bilhões de reais no último ano. Com ganhos iguais a 75% da receita no quarto trimestre de 2015, as margens da Eldorado bateram recorde histórico da indústria. Isso ajudou a aliviar o peso de seu endividamento, que permanece alto comparado com suas rivais, Klabin e Suzano. Essas outras duas grandes empresas brasileiras, Klabin e Suzano, também tiveram um bom ano, mesmo sendo produtoras integradas que sofreram com as vendas de papel destinadas principalmente para um mercado interno que sofreu em linha com a economia brasileira.

 

O momento atual irá durar? O excesso de capacidade é uma preocupação.  Em maio de 2015 a CMPC, uma firma chilena, deu início a uma fábrica no estado do Rio Grande do Sul, que irá produzir 1,3 milhões de toneladas de celulose por ano. Este mês a Klabin produziu os primeiros fardos em uma fábrica com capacidade para 1,5 milhões de toneladas no estado do Paraná. A Eldorado, por sua vez, está inaugurando seu próprio projeto de expansão em Três Lagoas, que poderá adicionar outras 2,3 milhões de toneladas de produção anual. E isso é só o Brasil. A capacidade global está prestes a crescer 2,7 milhões de toneladas somente este ano, estima UBS.

O crescimento da demanda deverá ser de apenas 1,5 milhões de toneladas. Isso certamente irá pesar nos preços eventualmente. E o real recentemente começou a apreciar com os mercados apostando em mudanças de governo e, portanto, um limite à paralisia da política e economia brasileira.

 

Os executivos brasileiros do setor parecem animados. Se o preço da celulose cair, plantas obsoletas e de alto custo, localizadas principalmente no hemisfério norte, podem ser desativadas reduzindo o excesso de capacidade. No longo prazo, a demanda por papeis do tipo tissue só tende a crescer. De acordo com Marcelo Castelli, CEO da Fibria, o chinês médio ainda consome pouco mais de 5kg de tissue por ano; ao passo que em países desenvolvidos o consumo fica em torno de 10-20 kg.

Quanto à moeda, o CEO da Eldorado, José Carlos Grubisich, observa que a indústria sobreviveu a um câmbio de $1,6 reais por dólar cinco anos atrás. Com a taxa de câmbio atualmente por volta de 3,6 reais por dólar, há ainda muito espaço para ganho. Mesmo a queda da demanda dos países desenvolvidos por papel de imprimir e escrever não é de preocupar: isso significa que tem menos papel sendo usado para reciclar, que, por sua vez, devem escorar a demanda por celulose primária.

 

Há uma busca para novas finalidades para a madeira do eucalipto, desde até substitutos sustentáveis para o plástico. Nos últimos anos, a Fibria compro participações em várias startups com tecnologia promissora, incluindo uma no Canadá. Outras duas estão em avaliação, “Dinheiro que cresce em árvore” promete Castelli, “Apenas leva tempo.”